Revista ACP março

14 | AUTOMÓVEL CLUB DE PORTUGAL MARÇO 2026 Tema de Capa Vítor Madeira ANALISTA DE MERCADOS DA XTB PORTUGAL OPINIÃO A recente subida dos preços dos combustíveis está diretamente ligada ao agravamento da tensão no Médio Oriente, em particular ao risco em torno do Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes para o transporte mundial de petróleo e derivados. Sempre que esta região entra em instabilidade, o mercado reage rapidamente, porque passa a incorporar a possibilidade de disrupções na oferta, atrasos logísticos e custos de transporte mais elevados. Ainda assim, isso não significa necessariamente que os combustíveis tenham de continuar a subir de forma contínua nos próximos meses. Muito dependerá da duração e da intensidade da crise. Se o risco geopolítico permanecer elevado e continuar a afetar o transporte marítimo, a pressão sobre os preços pode manter-se. Mas, se houver uma normalização gradual das rotas e uma resposta coordenada por parte dos produtores ou dos governos, o mercado poderá estabilizar. O ponto mais importante é: a pressão não vem apenas do preço do crude. O mercado está tambéma reagir ao aumento dos custos de seguro e transporte, à maior dificuldade na refinação e à menor disponibilidade de alguns produtos finais. Ou seja, o impacto sente-se em toda a cadeia energética, desde a matéria-prima até ao combustível que chega ao consumidor. Para além disso, os atrasos na entrega podem automaticamente agravar os preços. No caso de Portugal, o efeito parece ser mais de contágio do que de exposição direta. Mesmo sem uma dependência comparável à de outras regiões, o mercado europeu está fortemente interligado, o que faz com que qualquer choque internacional acabe por refletir-se nos preços internos. As notícias mais recentes mostram que o G7 optou por uma postura de cautela e espera. Na reunião de 9 e 10 de março de 2026, os ministros das Finanças e da Energia do grupo decidiram não libertar, neste momento, as suas reservas estratégicas de petróleo, apesar dos preços do crude terem atingido quase 120 dólares por barril. Em alternativa, foi pedido à Agência Internacional de Energia (AIE) que avaliasse a situação e elaborasse cenários para uma eventual libertação coordenada. A AIE convocou de imediato uma reunião extraordinária dos seus membros. O peso destas reservas é considerável: só os EstadosUnidos dispõem de 415,4 milhões de barris na sua Reserva Estratégica de Petróleo, a que acrescem 439,3 milhões de barris em reservas comerciais privadas. O Japão conta com 260 milhões de barris em stocks governamentais, equivalente a 146 dias de importações e a Alemanha detém 110 milhões de barris de crude e mais 67 milhões em produtos refinados. França, Itália e Reino Unido somam volumes igualmente relevantes. No total, o G7 controla uma capacidade de resposta que, se mobilizada de forma coordenada, poderia amortecer significativamente qualquer choque de oferta. A decisão de aguardar, e não agir ainda, é em si mesma uma mensagem ao mercado: as grandes economias estão prontas para intervir, mas preferem fazê-lo com de forma coordenada e não por impulso. O impacto tende a ser mais visível no gasóleo do que na gasolina porque o mercado do diesel já se encontra mais sensível, com menor margem de ajustamento da oferta. Além disso, continua a ter um peso muito relevante no transporte e na atividade económica. No atual contexto, mais do que uma escassez imediata, o mercado está a reagir ao risco de ela acontecer, e isso, por si só, já basta para manter os combustíveis sob pressão. Não devemos ainda esquecer que o Brent continua com dificuldades para passar dos 93 dólares de forma sustentada e se os governos continuarem a anunciar que estão dispostos a libertar as suas reservas estratégicas de forma a inundar o mercado, este pode ser um catalisador negativo para o preço. • Combustíveis sob pressão: o que está realmente a mover os preços C M Y CM MY CY CMY K

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