Revista ACP março

AUTOMÓVEL CLUB DE PORTUGAL MARÇO 2026 | 11 energética criada com a guerra da Ucrânia: um pacote de 6000 milhões de euros de ajuda às famílias e às empresas; a redução do ISP na gasolina e no gasóleo, com a redução significativa da carga fiscal o que ascendeu a 1500 milhões de euros; a majoração em IRC de gastos com energia e produtos para os setores económicos mais afetados; um apoio extraordinário aos custos com combustíveis em determinados setores económicos como a agricultura; um pacote de apoio às indústrias intensivas no uso de energia; a redução do IVA da eletricidade; a implementação do Mecanismo Ibérico de limitação do preço da eletricidade desligando-o do gás, beneficiando milhares de consumidores expostos ao preço spot no mercado; a transição para o mercado regulado de Gás Natural, que permitiu uma poupança até 70% e beneficiou 1,3 milhões de consumidores. Assumindo que os preços vão continuar a subir até o conflito no Médio Oriente se pacificar, e havendo a possibilidade de um efeito de contágio a outros setores da economia, há algum risco de o país registar escassez de combustíveis, num cenário de corrida às bombas de gasolina? Penso que para já não se configura um cenário de escassez de combustíveis. O país tem reservas estratégicas que pode usar para evitar falhas no aprovisionamento e é importante o Governo, desde já, estar concertado com os parceiros europeus para prevenir situações mais delicadas. Uma coisa é certa: a economia mundial não pode aguentar cinco ou seis semanas com o Estreito de Ormuz fechado e o planeta privado do aprovisionamento do Golfo Pérsico e por isso o problema da guerra deve ser resolvido o mais depressa possível para evitar uma recessão global. Este aumento de preços penalizou mais o gasóleo do que a gasolina, colocando o preço do diesel acima do preço da gasolina. Por que motivo isso aconteceu? A maior penalização do preço do gasóleo do que da gasolina deve-se a um conjunto de fatores. O mercado da cada um dos combustíveis tem especificidades próprias e há nesta altura uma maior procura de diesel não só na Europa como no mundo. Há deficiências e falhas na oferta de diesel e desde logo na Europa, que há muito tempo não abre novas refinarias, e com a política energética agressiva que adotou, fechou muitas unidades. O processo de descarbonização da economia é vital para o futuro mas deve ser feito com inteligência, de forma gradual, e sem criar fragilidades excessivas que ficam expostas quando ocorrem crises como esta. A isto acresce outro fator decisivo: a Europa hoje compra pouco petróleo do Golfo Pérsico, mas o mesmo não se passa com o diesel. 20% do diesel que a Europa consome transita pelo Estreito de Ormuz e o seu encerramento fez disparar os preços. As chamadas "diesel crack spreads", isto é, as margens que os refinadores ganham quando produzem diesel explodiram a seguir à eclosão do conflito e estão a afetar o mercado. Quando o preço do petróleo baixa, as gasolineiras e os comercializadores levam algumas semanas a refletir essa diminuição no valor final do diesel e da gasolina. Mas quando há aumentos, os preços tendem a subir no consumidor de imediato. Por que motivo isto acontece? Sobre o facto de quando os preços baixam existir normalmente mais tempo para essas baixas se refletirem no preço final dos combustíveis e quando há aumentos os preços tenderem a subir de imediato, isso é assim regra geral. É um fenómeno conhecido por "histerese" no comportamento dos preços, devido à maior inércia dalguns operadores para atuarem de imediato quando os preços baixam. De qualquer forma é um problema estudado há muito e a maior intervenção do regulador e a monitorização e fiscalização contínua dos preços tem feito o seu caminho e tem contribuído para a suavização e diminuição deste problema. O mercado, com uma regulação eficaz e inteligente, consegue muitas vezes corrigir as distorções.• O mercado, com uma regulação eficaz e inteligente, consegue muitas vezes corrigir as distorções.

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